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O Rosto da Misericórdia: uma viagem pela Sagrada Escritura

Frater Rarden Luis,scj

O tema central abordado nas parábolas, que se definem como sendo as parábolas da misericórdia do Evangelho lucano, isto é, a parábola da moeda perdida, a parábola da ovelha perdida e por fim, a parábola do filho pródigo, é sem dúvida nenhuma a misericórdia. As três parábolas possuem uma chave de leitura essencial, isto é, o reencontro, afinal sempre quando perdemos algo e encontramos nasce uma alegria que nos envolve por inteiro. Assim, acontece com Deus Pai, fonte de toda misericórdia, que se alegra sempre quando um de seus filhos retorna para a casa. Como afirma São Pedro Crisólogo, “[…] esta parábola é mais uma ponderação da misericórdia divina que a constatação de um costume humano; e expressa uma grande verdade. Abandonar as grandes coisas e amar as coisas pequenas é próprio do poder divino, não da cobiça humana: pois Deus chama ao ser o que não existe, e de tal forma vai à busca do perdido, que não despreza o que deixa; e de tal maneira encontra o perdido, que não perde o que estava guardado”.

O Evangelho é a boa nova anunciada por Jesus, a esperança de salvação, acolhimento e comunhão para todos. Ele veio para mostrar este caminho de fé, esperança e caridade, especialmente aos pobres (Lc 4,18). Por isso, Jesus não exclui e nem faz acepções de pessoas na sua pregação, pois Ele “proclama a todos que Deus está aqui para acolher, reunir os desesperados e os perdidos. Nisto consiste a alegria e a festa de Deus”. Jesus rejeita qualquer forma de lei judaica que exclua o próximo, porque esta concepção se torna uma caricatura de Deus e do seu modo de agir na história. Assim, as parábolas querem demonstrar o modo de agir de Deus, isto é, a misericórdia, o acolhimento, a alegria por um pecador que se converte (Lc 15,6-7).

Nosso Pai é o pastor, que não espera a ovelha, mas vai atrás, isso demonstra o cuidado que Deus tem para com cada um de seus filhos, da mesma forma que exemplifica como deve ser nossa atitude de relação com Deus e também com o próximo. Nosso Deus é o pai do filho pródigo, no qual descobrimos o amor e a bondade acolhedora de Deus, que evolve todos nós pela dinâmica deste amor misericordioso, nos levando a participar da sua alegria. Os verdadeiros cristãos não podem ficar estagnados em seus pequenos mundos, mas devem ir atrás dos mais necessitados, daqueles que ainda não realizaram a experiência vivificante do amor de Deus. A grande novidade para nossa época é que este amor extraordinário e desconcertante deve se tornar fonte para nossos gestos cotidianos. Assim, Lucas “faz um convite aos cristãos praticantes, a fim de que façam lugar para todos os que vêm de fora e se alegrem pela sua conversão. De fato, a conversão cristã é o encontro dos pecadores com Jesus e o seu acolhimento”. Neste clima de festa alegre nós devemos caracterizar as comunidades da atualidade, que têm a missão de tornar atual e visível a ação salvífica e misericordiosa de Deus no mundo.

A Sagrada Escritura, especialmente o Novo Testamento trata permanentemente o amor e a misericórdia de Deus pela boca de Jesus, Filho do Homem, que se voltará constantemente para os pobres, excluídos, oprimidos e pequenos, como vemos nas três parábolas contadas por Jesus e narradas pelo evangelista lucano. Encontramos nas Bem-Aventuranças de Mateus uma ponte de ligação acerca da misericórdia, ou seja, “felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7), não obstante a retomada do profeta Oséias: “Porque é amor que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6). Aqui temos a teofania do resgate do ser humano em relação à lei judaica que também é apresentado em Mateus, quando ao final proclamamos: “Com efeito, eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9,13), aqui ressaltamos o início do texto em análise, quando os publicanos e pecadores se aproximaram de Jesus para ouvi-Lo. Além disso, Zacarias ao entoar seu Benedictus recorda o atributo que Deus dera a si mesmo no êxodo que encontramos em Lucas: “para fazer misericórdia com nossos pais, lembrando de sua aliança sagrada. Graças ao misericordioso coração do nosso Deus” (Lc 1,72.78). Maria em seu Magnificat também recorda a misericórdia de Deus: “e sua misericórdia perdura de geração em geração para aquele que o temem” (Lc 1,50). Portanto, concluímos que nossa misericórdia é totalmente inspirada no Pai, neste Pai que ama profundamente.

Paulo também exorta os colossenses: “revesti-vos de sentimentos de misericórdia” (Cl 3,12). Ele ainda apela para a ternura e misericórdia dos filipenses: “Portanto, pelo conforto que há em Cristo, pela consolação que há no amor, pela comunhão no Espírito, por toda ternura e compaixão” (Fl 2,1), inúmeras vezes ele fala de um Deus rico em misericórdia: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo – pela graça fostes salvos” (Ef 2,4-5). Em Hebreus nos é mostrado que na pessoa de Jesus temos um sumo sacerdote misericordioso: “Convinha, por isso, que em tudo se tornasse semelhante aos irmãos, para ser, em relação a Deus, Sumo Sacerdote misericordioso e fiel, para expiar assim os pecados do povo” (Hb 2,17). Enfim, é necessário considerar que a misericórdia e a piedade de Deus no Antigo Testamento se tornaram ternura e mais ainda, o verdadeiro amor do Pai, por meio do Filho, no Novo Testamento, como podemos perceber nas parábolas da misericórdia.

O Papa Francisco manifestou ao mundo o ano da Misericórdia. Ele mesmo já afirmou que a mensagem mais forte do Senhor é a misericórdia. Muitas vezes no processo de santificação de nossas vidas, somos como o povo que, por um lado, quer ouvir a boa nova de Jesus, mas gosta de criticar ou condenar os outros. Não é fácil para a condição humana entregar-se radicalmente à misericórdia do Senhor, porque é um abismo incompreensível, mas que todos nós devemos fazê-lo. A misericórdia transforma a vida de todo cristão, de tal modo, que o pecado é colocado à parte. A misericórdia é uma grande luz de amor e de ternura, como afirma Francisco. Deus perdoa não com um decreto, mas com um carinho de Pai, acariciando as feridas do pecado de cada cristão. Deus nunca se cansa de acolher e de perdoar. Somos nós que sempre necessitamos do seu perdão. O Papa afirma que nas parábolas da misericórdia encontramos “o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão”. Sejamos nós também misericordiosos, como nosso Pai que está nos céus é misericordioso, tanto com o próximo, como conosco.

Assim, o Papa Francisco, no dia 13 de março, durante celebração da penitência, na Basílica de São Pedro, no Vaticano convocou a Igreja para o Ano Santo da Misericórdia dizendo: “Pensei muitas vezes no modo como a Igreja pode tornar mais evidente a sua missão de ser testemunha da misericórdia. É um caminho que começa com uma conversão espiritual; e devemos fazer este caminho. Por isso decidi proclamar um Jubileu Extraordinário que tenha no seu centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia”.

A partir das parábolas da misericórdia percebemos que o mundo necessita de mergulhar mais profundamente no mistério da misericórdia de Deus, que não se esgota, isto é, a fonte que nunca seca, para assim não deixar a misericórdia das relações interpessoais secarem. É necessário que tomemos cada personagem das parábolas e façamos uma análise espiritual de nossa própria vida, para que possamos, à imagem do pai terreno, querer nos configurar à imagem do Pai celeste que não se cansa de amar.

Por fim, o coração do ser humano deve transbordar cada vez mais o amor misericordioso de Deus, para que assim, consiga perdoar até “setenta vezes sete” e não caia na globalização da indiferença, como afirma o Papa Francisco. Para que viva como discípulo da misericórdia anunciando fortemente a “cultura do encontro” e, porque não, a “cultura do reencontro”.

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